sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Verão e Vinicio Capossela



Numa discoteca em Modena, pedi que me recomendassem músicos italianos que fossem interessantes ouvir, na linha dos escritores de canções, contemporâneos. Recomendaram-me Vinicio Capossela, dizendo que era o Bob Dylan italiano... Quanto à comparação, não sei exactamente como comentar. São muito diferentes. Mas Vinicio vale mesmo a pena ouvir e vem à Culturgest, a 17 de Novembro. É um concerto a não perder. Pelas atmosferas musicais, mas também pelas letras, e pela voz. Pelo temperamento da poesia que impregna de vida e de sensibilidade a música.

Fica apenas um verso... ao amor... talvez porque é Verão. E Portugal tem praias tão bonitas, como esta, em Aveiro.

«Che cossè l'amor»
che cos'è l'amor
chiedilo al vento
che sferza il suo lamento sulla ghiaia
del viale del tramonto
all'amaca gelata
che ha perso il suo gazebo
guaire alla stagione andata all'ombra
del lampione san souci (...)

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

3º Andar Dto. Bruce Willis


Oportunidade única de espreitar um espaço de intimidade de um dos criadores mais interessantes da dança contemporânea portuguesa, aqui numa proposta em diálogo com o design. Miguel Pereira abre as portas de casa para um 'showroom' pensado em colaboração com os designers Bruno Carvalho, Elizabete Francisca, Nicolaas Leach e Paula Frazão.

As portas estão abertas dias 1 e 2 de Setembro, das 16h às 21h, na Travessa do Terreiro de Santa Catarina, nº32, 3ºdto, em Lisboa.


«Tentando fugir à metodologia habitual neste tipo de “diálogo” artístico, procurou-se encontrar um território onde fosse possível questionar tanto a função do design como a sua aplicação a um universo performático.
Assim, em vez de trabalhar e pensar os objectos aplicados a um possível espectáculo, como seu complemento, optou-se por deslocar a sua intervenção para um outro tipo de “cenário”: o universo privado (a casa) do próprio artista.
É a partir desta premissa, que o trabalho se mostra ao público, permitindo assistir, in loco, à revelação de um lugar que de outro modo estaria vedado ao seu olhar, pela sua natureza íntima.
Com efeito, e durante 2 dias a casa do Miguel estará aberta a quem quiser para mostrar o antes e o depois da transformação sofrida no âmbito da proposta e dos objectivos traçados por ambas as partes.
Em 2008, e numa terceira parte do projecto, tentar-se-á deslocar o cenário “real” da casa para um espaço público (uma galeria, por exemplo) e confrontar o olhar do espectador com a performance privada do artista, agora actuando num contexto “público”.» Texto do programa

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

A nevar em SL e a nudez resolvida




Está a nevar algures numa ilha em SL. Depois de fugir de uma festa tresloucada. E a Jonsy já ultrapassou a fase da nudez compulsiva e os constrangimentos que daí decorriam. Tudo se resolveu, simplesmente, com... uma nova placa gráfica para o computador. O mundo está mais bonito, mais luminoso, e até os movimentos estão mais ágeis.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

O fantasma do Convento da Saudação


Legenda: Fotos do Convento da Saudação (O Espaço do Tempo, centro coreográfico de Rui Horta, em Montemor-o-Novo) durante o projecto Colina - Colaboration In Arts, de 2003

Primeira aproximação à história de Samuel B (uma história complicada... que não mais termina...)
Publicado na revista Magazine Arts em... 2003?

Percorri os recantos do Convento da Saudação, em Montemor-o-Novo, à procura de Samuel B.
Recordava um breve encontro do passado, e a sua imagem perseguia-me como uma sombra que queria reencontrar corporizada. Dessa troca fugaz de olhares e palavras ficaram-me marcadas as impressões de um sorriso
misterioso,
ambíguo,
sorriso precedido de artigo indefinido e acompanhado por uma absurda aparência de olhar triste.
Um sorriso de olhar perdido no mundo.
Era como se Samuel B. não tivesse alma.
Era como se Samuel B. não compreendesse quem era.
E nessa não compreensão, era como se Samuel B. se lançasse num abismo de sentidos, no colapso de uma existência especial, extraordinária, fazendo da sua maior fraqueza – essa angústia de quem sente ou pressente que não é enquanto ser constituído de uma essência – a sua maior força. Samuel B. fez de um constante desdobramento de personalidade, de uma desmultiplicação de comportamentos psicóticos, uma capacidade de frequente renovação da sua identidade e uma extraordinária adaptação à circunstância particular que tinha, a cada novo instante, de enfrentar.
O que ele era, Samuel B. não sabia.
E por isso era muitas pessoas diferentes que a cada novo momento descobria, maravilhado, dentro de si.
E por isso, para nesse processo de constante metamorfose se poder encontrar, conseguia sempre antecipar a expectativa criada nas pessoas que consigo se cruzavam, superando a surpresa aguardada, surgindo com uma acção que o tornava irremediavelmente inesquecível. Samuel B. experimentava no seu não ser íntimo as delícias de quem, com furiosa ânsia, adaptava o seu temperamento ao que entendia como sendo desejado por determinada pessoa ou determinado grupo de pessoas, aplicando uma peculiar sensibilidade neste processo de análise psicológica e sociológica da expectativa criada no outro e nunca, mas nunca, o decepcionando. Assim, este louco que queria ser alguém e sentia que Não Era e que queria ter o dom de compreender quem era, caso se viesse a constituir enquanto Alguém, ainda situando-se nesta fase de sonho, por ser antecipatória desse instante de concretização do ser completo, desejava ardentemente iluminar-se de uma sabedoria interior que lhe permitisse compreender quem era esse ser que um dia poderia vir, finalmente, a constituir-se enquanto Ser.
Era tendo todas estas desmedidas ambições que Samuel B. andava pelo mundo a deixar marcada, como uma tatuagem, a sua imagem no ser dos outros.
Por enquanto era apenas uma sombra,
e, sendo apenas uma sombra, era muito mais do que apenas uma sombra, porque se constituía enquanto corpo físico, cuja presença era desejada, mesmo antes de sentida.
E mesmo enquanto apenas sombra, sendo mais do que mera sombra, era uma silhueta confusa que se instalava docemente sobre a nossa pele,
que nos percorria o corpo de um arrepio inesperado à noite, como se alguém invisível suspirasse baixinho ao nosso ouvido, por baixo dos lençóis, em noites de lua cheia. E nesse instante de aragem sensual, de hálito quente e adocicado, éramos tocados como se o ar fosse todo corpo em harmonia com o nosso próprio corpo. Samuel B. destruía todas as apatias do universo com um poder omnipresente que rivalizava com Deus nos céus.
Que criatura é esta que pisa o mundo e que todos desejam e ninguém compreende?
Samuel B. é um nome que ainda hoje quero conhecer mas que se me escapa, por entre os dedos, por entre uma distracção do olhar, por entre uma desatenção.
Samuel B. é uma obsessão.
Samuel B. passeou-se pelos corredores do Convento da Saudação, em Montemor-o-Novo, durante quinze dias, como uma fantasmagoria que assombra a existência de quem realmente existe e respira e suspira.
Samuel B. é o espaço da invenção, o espaço da maravilhosa possibilidade de construção criativa que apenas a imaginação humana consegue operar, e que se torna simbólico da realidade, ela mesma estonteantemente criativa, que se instalou, naquele Convento, num projecto de residência artística. E no espaço escrito, neste lugar de construção narrativa, onde antes existia apenas a folha em branco, cruzam-se os mundos da verdade e da mentira, sendo a mentira uma reacção intuitiva à realidade que a inspirou. Chamou-se Colina. Essa experiência inspiradora. Significa Collaboration In Arts. E as pessoas com nomes de pessoas que são personagens com nomes de pessoas verdadeiras cruzaram-se naqueles claustros de ideias em execução e questionamento e problematização. E colocaram ao serviço de terceiros os corpos verdadeiros de pessoas verdadeiras que são pessoas com uma construção social, com uma configuração artística. Construiu-se assim, por quinze dias, uma comunidade transitória de pessoas que se dispõem a jogar ao faz-de-conta, que se dispõem a ser manipuladas como matéria-prima para moldar ideias alheias. E por ali encontraram-se os rostos do fingimento do teatro e os corpos da sugestão da dança e os nomes de pessoas com nomes de pessoas que são autores e que são intérpretes e que são nomes com muitos significados e que transportam atrás de si mundos de construção imagética, inevitavelmente a eles associados. E a primeira ideia foi de Rui Horta. E surgem depois todos os nomes. Recordo o nome de Clara Andermatt, e recordo o nome delicado e disponível para a colaboração de André Gingras, Anton Skrzypiciel, Luciano Amarelo ou Nicolas Cantillon, e recordo o nome de João Garcia Miguel, que é uma personagem por entre as personagens que ele próprio tem inventado, sendo ele próprio possivelmente a maior e mais complexa e caricatural e deliciosa personagem que alguma vez consolidou enquanto encenador invulgar de sentidos invulgares do seu potencialmente invulgar espaço teatral. E evocam-se outros nomes, que vêm atrás destes primeiros e possivelmente (noção discutível se aproxima) mais reais nomes. E surge Andy Warhol, que evoca um mundo de arte como mercado e toda uma estratégia e postura de construção de personagens e de identidades que em si mesmo dilui a separação entre o mundo da arte e o mundo do real. Ou cria entre os dois um abismo maior? E chama-se por Marcel Duchamp num palco habitado por uma provocação de Stephanie Thiersch. Duchamp que não responde, mas cuja referência transporta todo um mundo simbólico que é difícil ignorar. E tudo por ali deixa um rasto de memória marcado nas paredes do Convento (ou, por extensão, no Teatro Curvo Semedo), que por si mesmo carrega já a poética ruína dos tempos antigos (e surgem outros nomes, o universo de delícia da «Casa de Bonecas» de Susana Jaques ou a magia da imagem de Hélder Dias). E neste ritual de passagem, de todas as pessoas insignificantes que somos todos nós, meros 'passers by', evoca-se Rebecca Schneider, ao referir a qualidade de passeantes, seres fugazes que a memória do tempo tratará de eliminar (mais uma noção discutível) por não figurarem nos murais das ilustres figuras fixadas para a posteridade. 'Passers by' em vertigem por entre os intestinos do monumento, construindo no seu âmago o paradoxo do sangue vertiginoso presente, performativo, pulsante, em confronto com o enigma da corrosão decadente dos séculos que passaram e que ditaram a imponência para a posteridade da sociedade do arquivo que nos esmaga nas suas configurações dos absolutamente válidos para a existência eterna. Quem impõe as regras? Quem dita os padrões?
O que é um conto?
Uma frase roubada a alguém cujo nome não guardei.
Desejo ardentemente que assim seja.
Samuel B.
Regresso ao sorriso imaginado que imagino a desenhar-se na face de Samuel B. quando cruza o seu olhar com o meu.
E nesse instante em que os olhos se tocam, sinto-lhe o corpo na proximidade do calor do meu.
Samuel B. foge, mais uma vez. É rápido a baixar o olhar, a fechar a porta para o seu mundo interior. Talvez com receio de que o descubra vazio.
E por entre as paredes grossas do Convento da Saudação corre veloz a sombra de Samuel B., de mãos nos bolsos, a chupar uma pedra e a deixar ouvir o chocalhar das muitas pedras que foi guardando nos bolsos que agora acolhem as suas mãos. E vêm tantas outras referências, apenas com mais esta referência às pedras chupadas, mas cuja partilha do dito no silêncio do que não é explicitamente afirmado remete-nos para uma outra experiência, que carrega consigo mais uma série de outras referências.
Os segredos.
Quem tem acesso aos segredos?
Quem nos escolhe para partilhar um segredo?
Com Samuel B. partilho todos os segredos do meu mundo e ele, em troca, oferece-me a ilusão de que eu tenho acesso a todos os segredos do seu mundo. E mais uma vez é um jogo de verdade e de mentira. E regresso aos corpos, o corpo fugidio e fantasmático de Samuel B., e todos os outros que deixaram vestígios nos corredores daquele Convento, como o de Luís Guerra, como um corpo em profunda fase de descoberta, de si próprio e das possibilidades criadoras do ser humano, e todos os outros corpos – e regresso aos segredos – que se dispõem a exercícios mais sussurrados, segredados ao ouvido por Teresa Prima, como um suspiro, que se solta numa cumplicidade que decorre em palco mas que salta depois para o exercício de testemunha desse momento de partilha. E esboço um sorriso na delícia da empatia estabelecida simplesmente, ali, por um afecto descoberto no acto criativo, entre Luís Guerra, Félix Lozano e Joclécio Azevedo. E novamente remeto para a memória de Rebecca Schneider e evocam-se as estátuas vivas construídas há poucas semanas nos jardins da Gulbenkian a partir de um segredo partilhado ao ouvido por um amigo recém-descoberto nos meandros das artes. E ouve-se uma voz doce que canta uma melodia nostálgica que nos embala para um mundo de sonho, onde é possível fechar os olhos e deixarmo-nos ir. Eric Linder.
E recordo a Eva do sorriso das noites brancas atrás dos sentidos das palavras que procuram outras palavras irmãs numa língua diferente, para nos aproximar a todos em cada novo dia de louca procura de novos sentidos para as palavras brancas que, com sorrisos, queremos colorir.
Tudo isto é um segredo, que partilho com quem me lê, que desejo partilhar com Samuel B.
Samuel B. que desejo.
Tudo isto é um segredo como são segredos todas as pequenas histórias, todos os pequenos contos, que escrevemos num papel e que apenas um grupo restrito de pessoas compreende em todo o seu significado. Mas basta escolher uma frase e adormecer com ela. Basta escolher uma imagem e aninharmo-nos nela. Basta escolher uma palavra, uma palavra é quanto basta, para nos enroscarmos num conforto de possibilidades e nos sentirmos confortáveis com os sentidos relativos e subjectivos de todas as outras palavras que inicialmente não compreendíamos. Porque não tínhamos acesso a todos os segredos.
E depois poderia falar de amores. Para que o conto se pudesse tornar mais universal.
E devo então falar dos corpos que se apaixonam e se precipitam no abismo do sofrimento da paixão intensa que seduz a morte e deixar correr algumas palavras de «O Erotismo» de Georges Bataille. E pensar no corpo de Samuel B., pensar em todos os outros seres que com ele se cruzaram e que por ele se deixaram seduzir, num encantamento impossível de superar, num encantamento que choca com a dor, o terror de não ser totalmente correspondido. O desejo de morte. O desejo de matar. E devo escrever ainda que este mundo de comunhão, que é habitado pelo sofrimento e pela angústia do profundo desencontro e da mais dura desatenção, é também o espaço da exaltação que a todos interessa. E Bataille pode ajudar.
«As possibilidades de sofrer são tanto mais vastas quanto só o sofrimento revela inteiramente o significado do ser amado.»
E nos momentos de exaltação, nos opostos, da profunda e delicada tristeza, que deixa o corpo vulnerável, à beira do abismo, em pose de definhamento, ou no seu oposto, no sorriso esboçado por um prazer inominável, para o qual a arte cumpre um determinante papel, evoco novamente essa figura fantasmática que me persegue há imenso tempo e evoco esse espaço de contaminação em que não é possível identificar a fronteira entre o mundo da verdade e o mundo da mentira. E todos os nomes.
Convoco todos os nomes.
Maria Herranz, Vítor Joaquim, Célia Costa, Luís Bombico, Celine Bacque…
Nomes evocados em vão neste texto fúnebre, de homenagem à doce memória de um passado recente, mas também de elogio fúnebre do artista maior que foi aquele que se soube construir a si próprio enquanto ser e que terminou a sua existência num acto abjeccionista e degradante de se satisfazer sexual ou assassinamente, por se encontrar num estado tal de perfeição que não concebia a possibilidade de se deixar tocar por outro que não ele próprio, por considerar que ninguém estava ao seu nível. Ou um homem louco, mais louco ainda que Samuel B., que depois de cometida a sua maior loucura, e aqui imaginem o que quiserem, decide escrever uma extraordinária defesa filosófica sobre a sua insana acção. E deste homem louco o que fica é esse deslumbre canibalista, que habita em todos nós, que passa a interessar-se por esta criatura e pelos seus feitos aberrantes, elevando-a à categoria de ser ilustre e interessante, cujas razões mais íntimas de tal comportamento desajustado e reprovável desejamos conhecer para compreender. E perdoar? Por quem sentimos uma tentadora atracção. E regresso a todos os outros nomes que evoco. Nomes que simbolizam esse espaço de limbo em que as pessoas são verdadeiramente alguém sem que ninguém saiba verdadeiramente quem são mas sem que, por intrusão dos afectos no raciocínio e julgamento das circunstâncias, ninguém se preocupa realmente com essa possibilidade de o jogo do faz-de-conta estar a ser jogado nas horas do dia-a-dia, fora do palco. Um espaço de limbo que continua a existir mesmo nos momentos em que o palco nos é colocado perante o olhar, e este (o palco) surja então como um possível contraponto para nos fazer procurar esses opostos – o espaço da verdade e o da mentira. Perante tamanha evidência, concluímos que não os encontramos (os opostos), descobrindo apenas uma deliciosa, por muito que muitas vezes perversa, continuidade dessa atmosfera de máscara socialmente aceitável, fora das fronteiras que definem o lugar do reino da mentira. E quando jogado com a intimidade, as fronteiras tornam-se não-lugares, zonas confusas, descaracterizadas, vulneráveis, onde não se sabe quem somos na verdade.
Desejo ardentemente que assim seja.
E Samuel B. é uma possibilidade de conflito com uma não existência ainda em fase de clarificação.
Começo a conhecer Samuel B., mas ele ainda não me abriu as portas para a sua verdadeira intimidade.
E tudo isto porque há a assinalar a persistência de uma sombra, a de Samuel B., que foi percorrendo os caminhos, os recantos, os claustros… do Convento da Saudação, enquanto estive duas semanas neste mesmo Convento a assistir a uma maratona de criatividade artística.
Onde começa a ficção e termina a verdade?
A questão remete novamente para esse não-lugar.
Desejo ardentemente...
Para aquele instante em que as pessoas que lá estavam, e que eram pessoas cujos nomes significavam muitos significados relativamente a quem eram essas pessoas em termos sociais neste mundo do espectáculo e neste mundo de verdade dissimulada dos afectos e das verdades de cada um, nos deixavam perante o dilema de perceber onde começa o nome que é propriedade de uma vivência íntima e onde acaba o nome que é resultado de uma construção criativa. E basta pedir algo tão delicado como uma disponibilidade para o choro. E perante o choro, perante aquele choro que nos é alheio mas, por ser de tal modo sentido e de tal modo fragilizante para a pessoa que a ele se entrega, nos faz confrontar com as nossas próprias vulnerabilidades. E poderia evocar, a propósito desta frase, mais nomes. Delfim Sardo, Catarina Campino. E talvez tudo isto seja mais um segredo. E sublinhar a delícia desse momento raro em que a arte nos faz confrontar com os nossos próprios fantasmas… Segredos.
Desejo ardentemente que assim seja.
Poderia novamente recordar que esta história respira a mesma essência que nos constitui a todos como seres humanos, há muito de construção artificial, de mentira, de ficção, nesta narrativa, o que constitui zonas não totalmente identificadas, e há um fundo de verdade, mas não é preciso tudo conhecer, ter acesso a todos os segredos, para se deixar envolver pela capacidade de delícia resultante de um acto de partilha da imaginação. E repito-me. Basta uma palavra… e é possível experimentar esse privilégio da subjectividade, que constrói uma história pessoal a partir dos fragmentos de palavras lançados de forma desordenada nestas folhas de papel.
E regresso aos claustros do Convento da Saudação. Recordo o rosto de Samuel B. Recordo as palavras de Bataille. Recordo o apelo à paixão, e a morte a espreitar. Recordo o erotismo do corpo. Esse sentido real, que apela aos sentidos. E recordo Samuel B. a esquivar-se.
Samuel B. esquiva-se com um sorriso e sai ligeiro deixando-nos suspensos nesse sorriso.
Samuel B.
Um nome que ressoa na minha mente como uma gravação sem possibilidade de ser apagada.
Samuel B. como uma sombra, uma imagem que me persegue os passos sem privilegiar do prazer da sua presença.
Samuel B. uma obsessão.


O conto.
Desejo ardentemente que assim seja.
O conto?
Desejo…
Havia normalmente um acordar matinal preguiçoso e arrastado. Do corpo quente que, durante a noite, se funde com a maciês dos lençóis e receia quebrar esse elo umbilical com um conforto infantil, receia perder a ternura de uma impressão inocente de segurança, e lançar-se sem temor nos braços do mundo selvagem. Numa dessas manhãs lentas de Julho, lembro-me de acordar com um sorriso. É peculiar esta lembrança de abrir os olhos para descobrir, numa descoberta intuitiva e interior, no meu próprio rosto, um esboço de felicidade. Esta foi uma revelação activada não pelo olhar cruzado com o meu próprio olhar e rosto no espelho, mas antes por um processo mental inexplicável em que, sem que eu tenha conscientemente me focado nesse acto do pensamento, dispara um registo fotográfico da minha própria expressão facial idealizada. E nesse instante de auto-contemplação mental, lá estava ele, o sorriso, a dizer-me baixinho que aquele seria um dia diferente. Era o primeiro dia de uma vertigem criativa no Convento da Saudação. Era o dia das primeiras impressões, do primeiro olhar, dos primeiros equívocos, das primeiras precipitações, das primeiras especulações, das primeiras curiosidades que resultavam numa primeira rede de aproximações e cumplicidades, numa coreografia muito estruturada e geométrica mas intuitiva e emocional de relações empáticas ao primeiro olhar. E entre aqueles mais de vinte artistas, lá estava Samuel B., a sombra de Samuel B., que me persegue os passos nos últimos meses e que me seguira até ali, para me ir sussurrando, ao ouvido, indiscrições, confissões de temores e de cobardias. Só eu via a silhueta de Samuel B. naquela sala, sempre sentado a meu lado. A insólita, impossível, sedutora personagem que era Samuel B., entretido nas suas anotações para um dos seus mil projectos, sendo este uma tese que misturava elaborações teóricas de grande complexidade discursiva e uma mais superficial análise dos comportamentos humanos, numa lógica quase bigbrotheriana mas vista a partir da convivência diária, praticamente 24 horas por dia, de um grupo considerável de representantes de uma comunidade artística diversa, de portugueses e estrangeiros, das mais diversas linguagens, no período de duas semanas, com o ambicioso propósito de instalar uma dinâmica criativa e experimental que, mesmo não resultando em produtos acabados, denuncia descobertas de novas possibilidades, de abordagem da criação contemporânea, tendo em vista as mais-valias da contaminação e do acesso às novas tecnologias. E Samuel B. por ali estava, entre os outros tão diferentes dele e no entanto confundindo-se com estes como um camaleão. Era um satélite que circulava por todo o lado, com o corpo solto numa impressionante descontracção com a sua existência física, como se esta fosse um mero instrumento de sentidos em harmonia que se destacava precisamente pelo ar descontraído que ele punha em toda a sua postura. Tinha uns olhos água, onde apetecia mergulhar, uns lábios de riso fácil e tristeza rápida, e punha na voz uma melodia e doçura tais que se colava à pele de quem o ouvia, tornando-nos irremediáveis presas do seu capricho e sedução.
Desejo ardentemente que assim seja.
Claudia Galhós

terça-feira, 21 de agosto de 2007

terça-feira, 14 de agosto de 2007

«O Tempo das Cerejas» - excerto

Legenda: Centa (Centro de Estudos de Novas Tendências Artísticas) da Graça Passos, em Vila Velha de Ródão

«Quem são os outros que fazem de nós a pessoa que somos?
Um familiar? Um rosto anónimo perdido na multidão? Uma história que escutámos? Alguém sonhado? Um nome estrangeiro? Um músico? Um político? Um encenador? Um actor? Uma canção? Um poema? Um nome inventado num romance? Um nome inventado para o nosso romance? Quem são os outros que constroem o quem somos nós? Qual é o teu mundo? Quem é a tua família? Qual é a família que rejeitas? A que famílias pertences? Como te posicionas? Para saber onde estás tu? E para onde olhas, em que direcção, para identificar quem são os outros? Onde estão os outros?
Ela questionava-se. No momento da crise, crise íntima.
Pensava na escuridão, enquanto via o espectáculo. Procurava um sentido.
Os outros são apenas outros a partir da tua perspectiva e porque os olhas a partir do «eu». Se te mudarem de posição, e te retirarem o eu da formulação gramatical, se passares a ser tu olhada a partir de um «eu» que é alguém distinto de ti, passarás tu a ser «o outro».
O outro está sempre na posição oposta ao teu olhar.
Porque carregamos, tão naturalmente, com estranheza, o desconhecido? O outro é também o objecto do amor. É aventura e descoberta. Surpresa e desafio. É troca, partilha, diálogo. Se dermos hipótese, o estranho pode revelar-se belo e rapidamente familiar. Às vezes. Ao ponto de passar a fazer parte do «eu» que existia isolado e em solidão.
As memórias que vamos guardando definem a pessoa que somos em relação aos outros, aqueles que convidamos para fazer parte do nosso mundo.
A família que construímos por escolha.»

Porto num dia interior... de tempestade...







segunda-feira, 13 de agosto de 2007

O CORPO onde a vida e a dança se encontram. E o mesmo sempre inversamente...

Legenda: foto de Alain Monot, do espectáculo «Até que Deus é destruído pelo extremo exercício da beleza» de Vera Mantero

A dança é um estar junto

Seis intérpretes estão sentados, em fila, em cadeiras, na boca de cena, frente para o público. Durante cerca de uma hora falam, gesticulam, sem sair do lugar. As vozes derivam para variações melodiosas, que transformam o corpo das palavras em cânticos mais abstractos ou sons de animais. Trocam de cadeira algumas vezes, falam directamente para o espectador, são minuciosos no rendilhar da expressividade dos dedos, do olhar, da posição do corpo, dos braços… Não há dança? – queixaram-se alguns… É a nova peça de Vera Mantero. O nome foi buscá-lo a um poema de Herberto Helder, «Até que Deus é destruído pelo extremo exercício da beleza». A dança, hoje, é precisamente aquela peça, quando a dança é arte.
A dança é o exercício da imaginação poética do corpo da palavra, do corpo da voz, do corpo das luzes, do corpo em palco, do corpo na plateia… É de todas essas possibilidades de corpos, que celebram um momento de estar junto, que se faz a dança hoje. O movimento que desenha pode ser concreto, assumindo a sua expressão mais convencional, estética e contemplativa, mas pode ser sugestivo, poético ou filosófico. Este entendimento de movimento é, assim, muito mais amplo, rico e interessante.
A dança é poesia em cena, quando existe sem os constrangimentos dos formalismos académicos, nessa condição libertadora da experiência do ser, com toda a sua complexidade, angústia e ambiguidade.
A dança será sempre um corpo num tempo e num espaço. Mas podemos, e devemos, sempre discutir o que é esse corpo, esse tempo e esse espaço. E os seis intérpretes de Vera Mantero, com a criadora incluída, dançaram maravilhosamente.
Dançaram maravilhosamente nessa múltipla dimensão da arte: empreenderam o gesto afectivo, que se dá a conhecer sem reservas, numa proximidade comovedora e generosa; fizeram-no tocando a delicada poesia do existir, por entre essa respiração das sombras, dos pormenores, quase próximo do invisível; e ainda o fizeram com o virtuosismo de quem domina as técnicas do movimento e da metamorfose (porque o corpo é um corpo total, desde o pós-modernismo que sabemos disso, feito do sangue que corre nas veias, das respirações quase imperceptíveis, dos suspiros vulneráveis, dos desejos).
A dança é um estar junto.
A dança é um estar junto, num lugar de resistência à vida formatada, em que o autor da poesia, e do movimento, tanto é o criador e intérprete como o espectador.
A dança é um estar junto que propõe uma proximidade para a qual nem sempre estamos preparados.
Está na hora de reconhecer num sussurro ou num olhar o movimento perpétuo da poesia da condição humana. Isto é a dança.
Claudia Galhós
(Texto publicado por ocasião do Dia Mundial da Dança, em 2007, no suplemento do El Periodico, de Barcelona, dedicado ao tema, em que pessoas de áreas muito diferentes respondiam à questão: o que é a dança?)

Um banho relaxante em SL...




Regressar às cerejas... visitar Fabien num cemitério de Paris...




quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Pensar o Teatro em Montemor-o-Velho


A noite sem fim da infância
Claudia Galhós

O espelho de Alice está partido. Desfeito em mil fragmentos. Como o teatro. Como os tempos actuais. Mas este espelho, ainda não desfeito em pó, permite passar para o outro lado, para o mundo do sonho, da fábula, onde o encantamento se impregna de sangue e ternura. É nesse mundo que se situam as obras de Angélica Liddell e é esse o lugar do teatro contemporâneo, pós-dramático... Instalados nesse outro lado do espelho de Angelica Liddell, partimos de uma canção dos Arcade Fire, para analisar o teatro actual e construir aquilo que quase poderia ser... uma espécie de manifesto.

«I know a time is coming
All words will lose their meaning
Please show me something that isn’t mine
- But mine is the only kind that I relate to.
Le miroir casse,
The mirror casts mon reflect partout.
Black Mirror, Black Mirror, Black Mirror
(...)
Mirror, mirror on the wall,
Show me where them bombs will fall.
Mirror, mirror on the wall,
Show me where them bombs will fall.
In «Black Mirror» de Arcade Fire

Uma das contradições do contemporâneo, no que diz respeito à arte, e no caso concreto considerado das artes performativas, é o lugar do espectador. Se, por um lado, continua a projectar a sua identidade na obra proposta – assume o seu olhar singular, subjectivo e deseja ver-se reflectido nela – por outro tem um papel interventivo, no sentido de que participa da construção dos sentidos da obra, porque se envolve num diálogo, numa interacção (mesmo que apenas ao nível símbólico e/ou emocional), com a voz do artista.


Ler a versão integral no blog do Citemor, para o qual este texto foi escrito, a propósito da crítica aos espectáculos de Angélica Liddell ali apresentados.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Conto erótico

Legenda: foto tirada em San Sebastian, 2004, no âmbito do projecto artístico Mugatxoan, de colaboração entre Serralves e Arteleku, neste caso uma instalação de Nelson Guerreiro

O passado envelhecido em pétalas de rosa
Nota: publicado no Jornal de Letras em... 2006? (algures por essa altura...)


Recuperar a cidade dos afectos. Reconstruir a arquitectura dos suspiros. Seguir o caminho da pele. Entregar-me na tentação delinquente da ternura. Revejo o mapa da casa. Os quartos. Os risos. A sala. As refeições. A cama. O sexo. A cama. Nus. Os corpos enroscados. A cama. As costas voltadas. A cama. Os lençóis vazios. A cama.
A vida abandonada à pressa.
Desajeitada.
Os restos
comida nos pratos.
Deixar tudo.
As paredes mortas.
A cama desfeita.
A Puta sorri.
O hálito dos cadáveres apodrecidos. As esquinas. O sentimento amarelecido. O tapete gasto. O cheiro a mofo. A traça. O bolor. A ruína dos afectos. O monumento à morte do amor. O espectro do corpo desaparecido. A cruel distância do passado recente do presente passado. O fechar os olhos para poder voltar a ver-te ali
ali
na cama por fazer
nos lençóis que aquecemos
no nós reencontrado
no cheiro da comida ao lume
o chá de pé de cerejeira envelhecido em pétalas de rosa
o vinho
o beijo com o travo amargo da despedida
A Puta a fumar.
O desprezo.
o encostar em ti o corpo cansado para adormecer a sorrir depois de te reencontrar nos lençóis quentes sob o efeito do vinho e o cheiro do chá de pé de cerejeira envelhecido em pétalas de rosa
E tudo passado.
E tu passado.
E eu presente.
As lembranças em cacos.
Ela sobe à árvore mágica, morada de brincadeiras.
Enrosca-se lá dentro. Há um cantinho particularmente silencioso, onde só se escuta o assobio doce das folhas que deslizam no baloiço do silvo verdejante do vento nocturno. O corpo tem a consciência de que se recolhe para o interior, como se a pele, os braços, os músculos, os seios, as nádegas, fossem parte de um embrião que se enrola sobre si próprio e a porosidade sentisse os cheiros da carne íntima que se cola aos lábios. Se te tocares, podes sentir o odor inebriante do perfume sensual do sexo. Estás sozinho?
Há uma voz que vai diminuindo e se aproxima, baixinha, baixinha a voz que se baixa para se aproximar de ti. Também houve o tempo das cadeiras de baloiço. Das sombrinhas e dos sonhos das princesas. Dos mundos que existem no outro lado dos espelhos. Houve um tempo de uma palavra.
Ela sorri.
O rosto ganha o tom da cereja. A ruborisidade doce do tempo que passou sobre as pétalas de rosa.
Morangos.
Dias de sol.
O cheiro a café acabado de fazer de manhãzinha.
A ternura da inocência e ela leva o dedo indicador aos lábios.
Levanta as saias, baixa as cuecas, e leva o dedo indicador aos lábios. Acaricia-os. As pétalas de rosa envelhecidas. Lentamente. Com as saias levantadas e as cuecas caídas no chão, por cima dos sapatos vermelhos de salto alto, em cima de uma cadeira sobre um chão de tábua corrida de madeira, o dedo indicador empreende uma viagem de descoberta por dentro dos lábios que se abrem para o receber num beijo húmido.
Ele segue-lhe os gestos.
Brincas?
O que pergunta Ele?
Brincas?
Nos olhos dele que perseguem os olhos e os gestos dela está todo o mundo de tentação que contém o desejo proibido do tempo da inocência. O passado da ausência.
Ela baixa os olhos num sorriso.
A Puta cruza a perna, sem pressa.
A Puta esquece-se do sorriso que lhe prende a boca semi-aberta por onde vai deslizando um fio de saliva.
Ele desvia o rosto mas mantém-se atento a Ela. De soslaio.
No cimo da casa na árvore estão os miúdos.
Houve um dia em que Ele lhe quis experimentar o paladar da textura da pele. Aproximou-se o suficiente para lhe sentir o cheiro. Ela pressentiu-o. Ela tremeu. Ele hesitou. Mas nesse instante em que Ela o pressentia, o tremia e Ele hesitava, Ele sentiu que tinha a curva dos seios d’Ela por entre as palmas das mãos. Crepita-lhe o cheiro a queimado que lhe arde na ponta dos dedos e enche de labaredas a carne em desejo. O abandono do prazer que se dilui nos lábios de riso tentação. Fio de sangue escorre-lhe na melancolia do tormento aquoso da juventude. Espreita-a por entre as páginas do livro desnudado das palavras descarnadas que reclamam a ausência do teu sexo devassado no desvario da vida toda consumida em doses de ferrugem e de cinza estilhaçada por entre um gozo ácido do tormento de te descobrir de expressão neutra sem perdição desses dias de temperamento mais descontrolado em que se lançavam no precipício dos braços um do outro e se deixavam ficar a descobrir que entre uma coxa e um umbigo há todo um território de pele que se quer de novas texturas e arquitecturas arquejantes para dar um paladar à língua que a perscruta na busca de um caminho novo por entre sentidos que podiam estar resguardados num adormecimento gentil e desordenado que suspira o arfar desse estar embrenhado por entre as pétalas que foram caindo e guardadas na caixinha de madeira que tem o tacto do cheiro à memória dos corpos abandonados no esquecimento dos corpos que renegam o abandono dos corpos abanadonados no esquecimento. São ritmos nocturnos por entre ruas mal iluminadas e saias gastas por cima de ancas roçadas e incendiadas de suspiros e falsos pudores.
Depois Ela põe-se de tutu e de bicos de pés e Ele, miudinho, esgueira-se para baixo das saias d’Ela. Ela abre as pernas e dança só para Ele. Por baixo das saias d’Ela, o mundo d’Ele é mágico. Uma caixinha de música abre-se no jogo de espelhos do rodopio sem fim. Na casa de madeira da árvore, eles voam para um país encantado. Ela estica-se para a frente. As nádegas abrem-se e Ele encolhe em silêncio a vaidade. Repousa sobre o sexo a descoberto no corpo inclinado para o chão sem cuecas de renda branca transparente à vista. Procura janelas nas casas acotoveladas para espreitar lá para dentro e descobrir as vozes que se aproximam da vertigem alucinante do êxtase e recorda o ritmo dos dias rápidos e das noites entristecidas na solidão do corpo esquecido por cima de uma cama fria.
A Puta ri-te
no instante em que te vens debaixo das saias de tutu branco enquanto Ela se inclina ao chão em bicos de pés nos sapatos de salto alto vermelhos em cima de uma cadeira numa fila de cadeiras com sapatos de salto alto vermelhos gastos. Ela nunca soube. Mas a Puta sentiu-te quando te sentiste que finalmente entravas n’Ela. Lembras, no momento do orgasmo, a jarra de flores de plástico por cima do naperon de rendinha branca na camila velha na sala minúscula na casa do bairro antigo de ruelas apertadas. Lembras a cidade que se invade de pregões e cantigas de outros tempos. As vidas privadas que atravessam as paredes indiscretas. Os lençóis de linho bordados à mão. O lixo acumulado na rua e os cães a rondar, no farejo das sobras dos que apuram o dom do desdém. As emoções desarrumadas no silêncio do quarto que cheira a mofo. É outro, este, o odor inebriante a morada da perdição com o mijo entranhado nos lençóis, os mesmos onde sacias a sede desordenada que te bate no peito a pulsão dessa incontida humidade do suor a sémen. A Puta descai a cabeça para o lado. O cabelo espalhado por ali. Os ossos dormentes. O perfume a desinteresse. A vida de três tostões. Os sapatos enlameados. Os saltos partidos, encravados numa fenda no passeio esburacado percorrido à pressa. As meias de licra malhadas. O olhar desgrenhado. Os becos de sombras que se aquietam à tua passagem. O esperma que deixaste como rasto de nómada que sussurra a penumbra do movimento discreto do dedo indicador dela que foge para baixo das saias brancas e dos lábios suculentos. E por baixo da saia de tutus vislumbras um céu enublado de algodão doce e livros de areia, enquanto limpas a flauta que pensaste tocar para ela, para te perderes na cidade dos amola-tesouras que prenunciam a chegada da chuva e o cheiro às noites de remorso nos despojos das montanhas de pedra de calçada que percorres ofegante envelhecido na seiva que te escorre da língua.
O peso das palavras caladas.
Na cidade dos afectos
em ruína
passeiam-se os turistas do silêncio
que visitam os destroços de uma arquitectura amorosa arrasada.
Ela na casa da árvore de tutus e bicos de pés. E Ele na casa da árvore por baixo d’Ela de tutus e bicos de pés. A Puta já nem ri. Veste-se e sai porta fora a deixar um rasto de beatas e cinza de cigarro fumado com desatenção. Ele sozinho encolhido nos lençóis encharcados de mijo, suor e esperma. Queres desabitar a lágrima que acolhe o rosto. Já não escreves nem beijas a superfície do amor.
Tudo o resto repousa no cemitério dos sentidos adocicados que envelheceram,
cedo demais,
em pétalas de rosa secas.

Claudia Galhós

Às vezes o amor, às vezes os novos nascisos

Sérgio Godinho, na boa tradição de contador de história que capta o sinal dos tempos e o lança ao mundo numa canção que retrata amores, desamores, vícios e desvios, volta a acertar no último álbum, «Ligação Directa».

Claro que todas as canções que ele compõe e escreve, vivem da respiração das letras e das histórias com as melodias com que as veste. Qualquer canção mereceria ser transcrita, cantada em coro, escutada por entre as janelas abertas das ruas estreitas e inclinadas de Lisboa ao resto do mundo. Mas escolho uma, da qual deixo um breve excerto (vale a pena descobrir a música completa), que retrata com particular pertinência uma epidemia que alastra nesta sociedade do novo milénio. Afinal, vivemos os tempos do império das aparências.



«O REI DO ZUM-ZUM»
(...)
Eu vou correndo de ecrã em ecrã
da sitcom ao site ponto com
a ver se nalgum deles
se ilumina o meu nome
eu quero a fama e o proveito
(ninguém é perfeito...)
eu quero a fama e o proveito
(ninguém é perfeito...)

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Breve conto-canção inédito

Legenda: as duas gatas, versão feminina do Kusturica: «Gata preta, gata branca»

História de Cordel


Começo por debruçar o olhar sobre o novelo.
Penso.
Gostaria de descobrir a ponta. Poder desenrolar. O cordel.
Não sei o começo.
O dilema primeiro.

Eu. Perante um cordel. Sem lhe ver a ponta.
Rondo-o. Vou ronronando em seu redor. Dou-lhe uma patada. Gentil.
Penso nos dias.
Deixo os dias escorregar pela pele áspera de uma corda que não ata coisa nenhuma. E depois desisto. Sei que não é por aqui o meu caminho. Nada faz sentido. Por que insisto numa realidade que não é a minha? E desoriento-me.
Penso no labirinto.
E descubro novamente a necessidade de desenrolar o cordel, para poder encontrar o caminho de saída, para me desembaraçar da minha carne. Para encontrar o corpo.
O corpo habitado por um outro corpo.
E volto-me para aquele território no canto mais profundo deste desapego à certeza para gritar o desejo de encontrar. Ter um tempo para encontrar. Sinto o desdém de quem me diz que viveu um tempo em que tinha tempo. Sinto desprezo por todos os que recordam.
Olha como estão loucas as memórias do passado que não sabem do que falam, que ficaram retidas nesse outro tempo
...com tempo...
Sinto que as posso encontrar num hospital para os tresmalhados.
Sei que posso cerrar os dentes para conter a gargalhada a despropósito do mal dos outros que viveram sem conseguir o esquecer.
Tento berrar.
Não sei do que falam.
A voz abafa sempre. Baixinha.
Quase nem me ouvem.
Quase nem me ouço.
Encolho-me para me aproximar das minhas próprias palavras.
Olha as loucas palavras loucas.
E tento escapar-me para baixo dos lençóis.
Lá encontro os corpos e o novelo que continua com a ponta escondida e eu desesperada à procura de um começo.
Lembram-se os tempos em que era uma vez. Alguma coisa acontecia no início. Quando começava a acontecer havia sempre qualquer coisa extraordinária que começava a acontecer e era anunciada como um grande acontecimento.
Era uma vez.
E depois encontras o corpo do outro, um homem de olhar sedutor, com a sua forte personalidade, que inicia um processo de conflito e de provocação contigo.
Sim, para o enredo ficar mais obscuro.
Verão.
Precisamos de histórias de paixões.
Ela está estendida ao sol e suspira.
O rapaz, perdão, o homem, elegante, musculado, com uma profissão fabulosa,
- não é assim que eles são sempre? -
O homem entra em guerra com ela para esconder sentimentos debaixo dos lençóis desencadeia-se a paixão.
Há ali palavras que esqueci.
Antes delas havia quadradinhos.
Lembras-te?
Havia as fotonovelas.
Era o tempo Era uma Vez.
Eu queria uma personagem com uma pessoa lá dentro e não uma deambulação psicológica.


Claudia Galhós
(uma versão reduzida do conto original, também meu, e também inédito)

À conversa em SL


Saudades de uma conversa tranquila, numa mesa com tampo de rendilhado de azulejos portugueses, numa casa privada, com confidências e intimidade, a três, com saudades de Gaia e Zeta... por onde andam?



Duas amigas à conversa ao pôr-do-sol em SL, na ilha da Universidade de Aveiro, antes de aparecer por ali um estudante a voar com um gadjet de SL que lhe permitia suspender-se no ar, tranquilamente... maluquices...

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Com vista sobre Angélica Liddell, Citemor e Montemor-o-Velho


Al Berto a entrar pelas ruas e pelos contos de fada da visão das viagens que se guardam na memória como sonhos

pousa a boca no peito fissurado da terra
colhe o silêncio do que está morto
regressa para onde nunca estiveste
reconstrói em ti a pequena ruína dos brinquedos
no quarto escuro refaz o fugitivo corpo



da rumorosa existência de papel bebe
a ansiedade venenosa das palavras o sangue
das perdidas aves no surdo coração da viagem

quando chegares ao límpido limiar do corpo
incendeia a cruel noite da infância despede-te
porque ao regressares aos tristes dias de hoje
terás esquecido a breve alegria do rosto e
uma luz extinguir-se-á vagarosamente
no interior da mão envelhecida
in «O Livro dos Regressos»
extraído de «O Último Coração do Sonho» de Al Berto, da Quasi


Jornal de Letras em Second Life

Uns dias antes, fui lá espreitar a capa virtual...


19h em RL. Hoje. Segunda-feira. A hora que desejarmos em SL - é só ir ao «world» e escolher em que momento do dia ou da noite queremos olhar o mundo virtual em nosso redor. Eu (Jonsy) estou no canto direito da foto, a atravessar metade do corpo do Ibrahim. Aqui, já o caos estava lançado. Sim, andei nua ao princípio. Devo confessar. Mas depois resolveu-se. O pretexto do encontro - aqui já alguns se tinham ido embora - é a reportagem que o Jornal de Letras (em cujo placard da capa virtual publicitada na Ilha da Universidade de Aveiro na SL estamos sentados uns e outros a voar em redor, todos portugueses) está a preparar para a próxima edição. Alguns, são amigos conhecidos no lançamento virtual do livro «O Tempo das Cerejas» em Bora Bora (SL, claro). Ao meio, de camisola vermelha, o jornalista do JL. Não digo o nome. E não digo mais. A história toda, é ele quem a vai contar. Eu mesma não a conheço... :))