sexta-feira, 30 de novembro de 2007

«O rio que é de tempo e água»

«Olhar o rio que é de tempo e água

E recordar que o tempo é outro rio,

Saber que nos perdemos como o rio

E que os rostos passam como a
água

(in «Arte poética» de Jorge Luís
Borges)
A cada novo dia, tantas descobertas novas, tantas possibilidades de começar novos caminhos, reencontrar outros já conhecidos. Esse rio de «tempo e água» que desliza, no qual nos perdemos, porque de tanto querer fazer, de tantas possibilidades maravilhosas à nossa volta, lá se vão os dias, rápidos, lá se vai o tempo, e «os rostos que passam como a água». Milhões de beijos às pessoas que amo e que sabem que temos de aproveitar as oportunidades que tempos e que o tempo não dá para tudo.

domingo, 25 de novembro de 2007

«As Musas» de Patrícia Portela

Sónia Baptista (à esquerda) e Patrícia Portela (à direita) no Colina 2004 (Collaboration in Arts, o projecto de Rui Horta, no Convento da Saudação, o Espaço do Tempo, em Montemor-o-Novo). Era o início do projecto «Parasitas» que as duas partilharam,

Ela cria objectos teatrais como quem escreve. É uma escritora. Não tenho dúvidas. Por isso, as obras a que dá corpo ao vivo, em espaços teatrais mais ou menos convencionais, têm uma dimensão literária. E às vezes têm mesmo texto que ela edita em livro. É assim no caso de «Odília - ou a história das musas confusas no cérebro de Patrícia Portela». Sei que acabou de estrear uma nova peça algures no mundo. E que vai andar com ela às voltas por palcos vários antes de chegar a Portugal. Mas, entretanto, temos aí este livro. A peça era para crianças. Mas, se conheço bem o universo dela, era para as crianças pequenas e para as crianças grandes. E, à falta desse encontro efémero por via do teatro, temos as páginas com as palavras e os desenhos. Onde, às tantas, ela explica o que são as «Musas», com o conselho de que «estas definições percebem-se melhor se se comer uma laranja enquanto se lê». E com uma laranja na mão, o cheiro ao campo em redor, cito um breve excerto deste texto:
«As musas nascem entre a cabeça, o coração e o dedo mindinho. São muito pequeninas, muito microscópicas, e quando olhamos muito atentamente para elas podemos ver que têm o formato de uma folha. Navegam de forma organizada e activa pelo cérebro, e pela espinha dorsal, e para comunicar entre si utilizam impulsos eléctricos e reacções químicas. Todas juntas, criam imagem atrás de imagem atrás de imagem atrás de imagem, estimulando as imagens seguintes, chegando aos 100 biliões de imagens por dia, cada uma.
São invisíveis a olho nu, mas quando chamadas por qualquer um de nós podem aparecer em sonhos, em conversas, em ideias, ou até projectadas noutros seres humanos.»
Na verdade, só precisamos de estar atentos. Ao que nos rodeia e aos outros. Sei que há pessoas para quem isto é pedir muito, porque estar atento aos outros, para essas, é apenas ampliar a grande atenção que dedicam a si próprias.
Eu, cá por mim, tenho andado por fora. Agora vou estar por cá, mas ainda assim vou andar por fora. Entre cá e lá... Com boas recordações. Encontrei muitas musas.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

terça-feira, 30 de outubro de 2007

A minha palavra favorita


Na terça-feira dois lançamentos. Neste, na colectânea intitulada «a minha palavra favorita», editada por Jorge Reis-Sá, tenho uma pequena história, daquelas que gosto de qualificar de histórias-canção. A apresentação é às 19h, na Fnac do Chiado, no dia 6 de Novembro.
Mas, no mesmo dia, às 18h30, na Livraria Barata, da Av. de Roma, há o lançamento do livro de Jaime Rocha, «Anotação do Mal», e de Teolinda Gersão, «O Silêncio».
Eu vou estar no primeiro, com o Jorge. Mas o meu coração vai estar um bocadinho também no segundo, com o Jaime.

domingo, 28 de outubro de 2007

Valter Hugo Mãe e o prémio Saramago

Há notícias que nos deixam com esperança no mundo. Como esta. Valter Hugo Mãe ter recebido o Prémio Saramago significa que ainda há esperança para a literatura, para que as coisas que realmente importam sejam valorizadas.
Não, não é um nome já premiado em todo o lado que ganha uma vez mais. Nem sequer um livro que todos (quem são todos? nesse universo tão restrito dos todos?) elogiaram. Ou sequer que todos se acostumaram a escutar como muito lido.
Certo, ele não é um nome propriamente desconhecido deste mundo, das coisas das escritas, das palavras e das moradas do silêncio... Ele anda por aí, pelas editoras, pelos jornais. Mas é um nome que tem feito um caminho na escrita de coração (muito distinto da «escrita do coração», que é de outra estirpe). Discreto. Convicto. Envolvido. Enredado. Guiado por essa relação com as letras que se faz de intimidade, no sentido de que tem uma voz, que é pessoal, e não se rende ao facilitismo.
Por isso sabe tão bem escutar o nome de Valter Hugo Mãe e o do livro «O Remorso de Baltazar Serapião» (publicado em 2006 pela QuidNovi e que devo confessar que não li) como tendo sido o vencedor. Com a vitória dele, ganha a literatura. Não essa de cordel, que não vem mal ao mundo que exista mas não se arrisca a transformar o mundo ou nem sequer uma pessoa, mas essa outra que se alimenta (e é alimentada) de quem a escreve, que se consome em palavras como cinzas do existir.

Temps d'Images a não perder

Arranca a 30 de Outubro a edição de 2007 do festival Temps d'Images. Para uma pequena ideia de alguns exemplos das propostas deste ano (de dança, teatro, música, artes plásticas, cinema e tudo a tender para tudo...) o Expresso Online aqui publica uma breve introdução e o excerto em vídeo de quatro espectáculos. Até 15 de Dezembro é sempre a abrir.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Matthew Barney e Londres no Outono





A visão possível dos vestígios do naufrágio (de uma porta da galeria aberta para o jardim) de «Drawing Restraint» de Matthew Barney na Serpentine Gallery, poucas horas antes da conversa com o artista

Olá gata cinzenta


terça-feira, 9 de outubro de 2007

Televisão em SL ou O absurdo tornado realidade virtual



Imaginem: um programa de entrevistas de televisão que acontece em directo na realidade virtual da SL. O estúdio, presença de entrevistado e entrevistador, anfiteatro para as pessoas poderem assistir ao vivo, câmaras de filmar à vista, audição (nem sempre adequada) das conversas. É real. Acontece. Quero dizer, é virtual. Acontece. Porquê apenas assim?
Questão: se há um mundo novo, virtual, onde a palavra central é «imaginação» («your world, your imagination»), por que é que a maior parte do que ali acontece não é mais do que a transposição (transferência, deslocação...) do que existe na RL para a SL? Temos assim tanta falta de imaginação?
Por que é que o que ali se constrói não se cria no exercício da resposta à questão essencial: o que seria determinada realidade/objecto/conceito/ideia se a pensássemos de novo para um contexto novo, que é a SL?
Tipo (exemplo): o que seria uma televisão e um media que poderá ter correspondência simbólica com a televisão para um contexto, lógica, e narrativas específicas que é esse mundo particular da SL? E o mesmo para tudo o resto, passo a passo, à medida humana, da deliciosa imperfeição, no exercício da experiência e do erro...
Assim se cumpria (ou pelo menos chegaríamos mais próximos) do potencial criativo, filosófico, humano, político, simbólico (pronto, económico também)... que constitui o que SL pode ser. Que raio! Por que é que não se vai mais longe? Falta de imaginação?

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

domingo, 16 de setembro de 2007

Second Life: Far Far Away

Quando a esta foto de Jonsy Lilliehook de cabeça para baixo (em cima) vou deixar a interpretação ao sabor da imaginação de cada um.
Em baixo, um dos meus lugares favoritos em SL: a ilha Far Far Away. Que é onde vou estar nas próximas semanas em RL: primeiro em Évora, a participar no Curso de Novo Circo, na Universidade de Évora (no âmbito do programa do festival Escrita na Paisagem 2007) e depois outros destinos que me vão manter em contacto com mundos virtuais e de imaginação apenas via a minha própria imaginação. Enquanto isso, aqui ficam algumas imagens desse lugar encantado que é: Far Far Away.



sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Fórum Cultural - 3) a importância da significação

A 26 e 27 de Setembro, realiza-se em Lisboa, no CCB, o Fórum Cultural para a Europa. É um acontecimento muito importante para a discussão e compreensão das linhas orientadoras do posicionamento da Europa no que diz respeito à cultura.

Até lá, para preparar o espírito para o tema, partilho alguns textos que provocam a reflexão. Não significa que concorde com o que todos eles defendem, mas são pertinentes estimulantes para pensar a discussão que ali vai ocorrer. Porque a informação é tanta, esquecemos muitas vezes o que aprendemos no passado. E, em alguns casos, há textos que foram lidos há anos e que vale a pena reler.

Apenas uma breve citação de «Livro do Desassossego» de Bernardo Soares:

«Os homens de acção são os escravos involuntários dos homens de entendimento. As coisas não valem senão na interpretação delas. Uns, pois, criam coisas para que os outros, transmudando-as em significação, as tornem vidas. Narrar é criar, pois viver é apenas ser vivido.»

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

«Putas» está de volta


Surgiu pela primeira vez em 2002. Chama-se «Putas». Apenas assim. Um livro que surgiu pela primeira vez por alturas do Natal, numa edição da Quasi e consta de um conjunto de textos representativos do «novo conto português e brasileiro».

Onze contos portugueses (de Ana Paula Inácio, Claudia Galhós, Filipa Melo, Francisco Duarte Mangas, João Paulo Sousa, Jorge Reis-Sá, Mafalda Ivo Cruz, Manuel Jorge Marmelo, Maria do Rosário Pedreira, Possidónio Cachapa e Rui Zink) e dez brasileiros (Cintia Moscovich, Clarah Averbuck, Fernanda Benevides de Carvalho, Ivana Arruda Leite, Luiz Ruffato, Marcelino Freire, Marcelo Mirisola, Nelson de Oliveira, Nilo de Oliveira, Wilson Freire), com abordagens totalmente distintas e pessoais, ao desafio proposto pela editora de escrever a partir desse imaginário tão íntimo que é tudo o que pode caber na palavra «putas».

Há muitas histórias aqui que merecem ser descobertas e lidas. Cada um terá o seu conjunto de preferidos. Eu tenho o meu. São vários. Alguns portugueses e outros brasileiros. Entre eles está o meu. Devo confessar.

Utilizando o lado mais pessoal dos blogs, e não querendo cair nessa ladainha cansativa do umbigo, gostava apenas de partilhar que este é talvez o texto, dos meus textos curtos (e tenho muitos), que mais gosto. Chamei-lhe «O Corpo Trágico» e ainda hoje esta personagem me comove sempre que regresso a ela, nem que seja apenas por um breve instante de memória.

Partilho a alegria de saber que o livro vai ser relançado, com nova capa (que publico aqui). E deixo um pequeno excerto desta mulher que se esconde quando se esquece do corpo que tem.

«Gosto de inventar estados mentais. Uma vez criados, instalo-me neles e recuso-me a abandoná-los. Habito um corpo usado e abusado. Recorro frequentemente ao esquecimento para apagar a memória desse uso indevido do corpo. Tenho momentos de prazer. Por vezes fujo da desolação ao entregar-me a um suspiro de delícia. Recordo-me de alguns desses instantes. A recordação surge em mim acompanhada de um sorriso. Mas são raros.»

Agrada-me particularmente pensar que este pode ser um maravilhoso livro de Natal. Para não sermos todos tão hipocritamente politicamente correctos e porque há aqui textos que são mesmo bons.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Música no mundo virtual

O mundo cada vez menos é vivido na esfera do universo do país que cada um habita. Todo estamos em constante trânsito, sempre em movimento, sempre em passagem de um lugar a outro. O ser humano vive, em si, a condição do Não Lugar, que Marc Augé definiu (enquadrando nesta categoria lugares de passagem, como os aeroportos ou as autoestradas). O Second Life apenas veio tornar isso ainda mais evidente.

A mistura de pessoas, de origens completamente distintas, que se encontram para trocar experiências é muito rica. O inglês, intuitivamente, acaba por ser a língua mais falada, mas há muitos portugueses, e encontram-se nos ambientes menos esperados. Os encontros e as partilhas fazem-se, ironicamente, a partir de casa, da intimidade, para um estar com o outro, antes tão distante, nesse espaço intermédio, que se concretiza visualmente através de novas formas de corporização, que é o mundo do SL.

Um dos grupos de discussão debate a música, nomeadamente formas de implementar música e som no mundo virtual. Há um blog que vale a pena visitar. E, sim, já me têm perguntado quando começo a fazer posts em inglês... Estou a pensar no assunto. Entretanto, entrem no mundo de Dizzy Banjo.

Outro a não perder é Metaversed. Questões sobre o desenvolvimento e pesquisa nos mundos virtuais, entre outras, são aqui tratadas.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Fórum Cultural - 2) A crise de valores

A 26 e 27 de Setembro, realiza-se em Lisboa, no CCB, o Fórum Cultural para a Europa. É um acontecimento muito importante para a discussão e compreensão das linhas orientadoras do posicionamento da Europa no que diz respeito à cultura.

Até lá, para preparar o espírito para o tema, partilho alguns textos que provocam a reflexão. Não significa que concorde com o que todos eles defendem, mas são pertinentes estimulantes para pensar a discussão que ali vai ocorrer. Porque a informação é tanta, esquecemos muitas vezes o que aprendemos no passado. E, em alguns casos, há textos que foram lidos há anos e que vale a pena reler.

Na conferência «Que Valores para este Tempo?», organizada pela Gulbenkian, nos dias 25, 26 e 27 de Outubro de 2007, Eduardo Lourenço foi um dos intervenientes com um texto a que deu o título de «À Sombra de Nietsche», no qual, às tantas, escreve: «O que é valioso, se de arte se trata, é sem valor, ou o valor não se lhe pode aplicar. Fica de fora, o valor. Não permite que a seu propósito possamos separar neles a realidade e a aparência, como o fazemos com a Realidade-Verdade do Ser.»

É dessa «crise de valores» que qualificia «a pior» porque é aquela que «não se vê» ou que «se vê e nos deixa indiferentes» que Eduardo Lourenço fala. Fica um excerto:

«E essa é a crise. É que nós não temos critério para distinguir o que é verdadeiramente valor do que não é. E esta é a crise, que não é uma crise por acaso, não é uma crise da cultura nem da civilização, mas é uma crise do senso, daquilo que nós somos como seres que pensam, sofrem, morrem sem saber se morrem, pensam e sentem e isso tem um sentido, ou não; a nós cabe decidir, é um problema de aposta, uma ouotra espécie de aposta pascaliana, aposta que nos faz viver ou morrer, somos nós, não os pais dos valores, mas os criadores dos valores ou, por não os sermos capazes de os criar, as suas vítimas.» (in «Que Valores para este Tempo?», Gradiva e Fundação Calouste Gulbenkian)

domingo, 9 de setembro de 2007

Second Life visto pelos media portugueses

A análise é de Palup (ou Paulo Frias, na RL, Professor Universitário e Investigador em Ciências da Comunicação da Universidade do Porto), que no seu blog, Discursos do Outro Mundo, dedicado à SL, apresenta os números do tratamento mediático dedicado a este mundo novo.

Para além dos números (extraídos de um levantamento de uma moldura temporal de 1 de Janeiro a 31 de Julho de 2007), partilha algumas das suas leituras desses mesmos números, que traduzem também a experiência de quem habita aquele espaço e ali pesquisa novas possibilidades de organizar os sentidos da vida, ampliada, complexa, com novas ferramentas e tecnologias.

Uma das conclusões é que a cobertura é feita sem conhecimento do ambiente do SL. Ao que acrescentava a minha impressão pessoal decorrente da leitura de alguns textos publicados sobre o assunto (principalmente de artigos que traduzem uma espreitadela rápida ao SL, sem uma familiariedade mais desenvolvida co aquela realidade, virtual...): a constatação da reprodução de um discurso que repete ideias pré-concebidas que ali são meramente confirmadas porque partem de um olhar que já vai à procura de as encontrar. Porque há mais para além do sexo, dos chats e da mera reprodução do real em imaginário virtual.

No artigo, Palup partilha o score de temas encontrados. É curioso descobrir o posicionamento interessante que ocupou o lançamento do meu livro, «O Tempo das Cerejas», na ilha virtual de Bora Bora, que na verdade se constituiu de um agradável momento de encontro e partilha, quando hoje se percebe que o potencial de interacção com aquele mundo é muito mais amplo - e já estou a tratar do assunto (embora aqui apenas dê conta da minha condição mais pessoal e íntima de relação com o SL, de viajante de lugares e pessoas, há muito mais a explorar, e claro que nem tudo é interessante).

O SL é apenas um começo. Quem estiver desatento, perde o combóio. E a discussão está apenas no início. O blog Discursos do Outro Mundo é um dos lugares onde é feito um acompanhamento detalhado, informado, crítico e criativo sobre o Second Life. Para ler mais, só tem de lá dar um saltinho. É aqui.

Concerto na Second Life





Gavin Klees, músico brasileiro, deu um concerto na ilha Portucalis, na Second Life. Ambiente intimista, acústico, apenas com voz e guitarra e a atmosfera agradável dos cantautores brasileiros, entre eles Tom Jobim.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Intermitentes em discussão

Segunda-feira, dia 10, às 18h00, no Maxime (Praça da Alegria), em Lisboa, a Plataforma dos Intermitentes (constituída pelas organizações AIP- Associação de Imagem Portuguesa, Associação Novo Circo, ARA – Associação de Assistentes de Realização e Anotação, ATSP – Associação dos Técnicos de Som Profissional, Granular - Associação de Música Contemporânea, PLATEIA - Associação de Profissionais das Artes Cénicas, REDE - Associação de Estruturas para a Dança Contemporânea, RAMPA, Sindicato dos Músicos, SINTTAV- Sindicato Nacional dos Trabalhadores das Telecomunicações e Audiovisual, STE - Sindicato das Artes do Espectáculo) vai discutir a proposta de lei do PS relativamente à questão da intermitência. Em comunicado, esta estrutura defende que a lei, a ser aprovada, «DETURPA todas as nossas propostas e não apresenta nenhuma medida para ajustar a segurança social à nossa realidade laboral».

Dizem ainda que, «após um ano de discussões, propostas e acções da Plataforma dos Intermitentes, o governo pretende arrumar o assunto de forma escandalosa : com piores condições de trabalho para os profissionais do espectáculo inseridos numa estrutura fixa e ignorando novamente a condição do intermitente». A estrutura convida todos os interessados a estarem presentes no encontro para discutir este assunto.

O programa de trabalhos é o seguinte:
18h-18h15 apresentação da proposta do governo
18h15-19h45 debate
19h45-20h15 resoluções

Para qualquer esclarecimento, devem contactar a Plataforma dos Intermitentes por mail: intermitentes@gmail.com

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Para que serve um Blog?

Resisti durante alguns anos. Quando me perguntavam por que não tinha eu um blog, ainda mais tendo em conta a minha actividade de escritora, respondia que para diários já me bastavam aqueles que escrevia, desde miúda, em cadernos de folhas leves e a caneta. Sempre achei que temos de salvaguardar algo de nós que não seja partilhado, tornado público, mesmo que apenas por via deste espaço quase íntimo da blogosfera. Acho que o mundo precisa que algo fique silenciado ou apenas partilhado, como segredos, a umas páginas mudas, que guardam essas confissões no espaço do não dito.
Ao terceiro romance (quarto livro) lá me convenceram. Achei que estava na hora. E uma grande amiga (obrigada Inês) fez-me o blog, que eu continuei a olhar com desconfiança.
Era o tempo que não tinha e que me ia obrigar a perder para o manter dinâmico (descobri que bastam 5 minutos por dia e isto parece que está vivo), era o receio de cair na lógica da auto-promoção (espero conseguir resistir-lhe, embora este seja um espaço pessoal, por mais informativo que possa tender a ser, é um espaço pessoal, legitimado apenas por mim própria), receava que não ficasse nada por dizer e que caísse na pretensão de que todo e qualquer pensamento tem de ser lançado ao mundo através do blog (não acontece, espero, continuo com os meus diários de papel, que contém muito de mim, que nem por sonhos passa para o blog) e receava contribuir para este mundo de ruídos, onde cada vez há menos generosidade para escutar a voz do outro e cada vez há mais disponibilidade apenas para escutar a própria voz (quanto a este ainda não sei, mas quero acreditar que não...)
Tinha ainda receio de escrever para o vazio. Mas é interessante como um blog, mesmo que discreto e querendo manter essa discrição, cria diálogos e estabelece relações que chegam por vias não directas e que são muitíssimo estimulantes. Por isso, parecendo um monólogo, ele está em diálogo sempre com alguém, esse feedback, que surge por outros meios que não por este espaço, é muito interessante. Mas continuo a pensar para que serve um blog.
Acho que deverá haver uma resposta diferente para cada pessoa. Por mim, reconciliei-me. O blog aproximou-me de pessoas que estavam distantes e de pessoas que não conhecia. E aproximou-me, de maneira diferente dos diários, de mim própria e do meu mundo. E continuo a guardar segredos que escrevo à mão em cadernos de papel que vou acumulando em baús, e que são preciosos no meu diálogo comigo própria e, nesse diálogo interior, com o mundo.
Não me preocupa que nunca sejam lidos, mesmo depois de tudo o que sou hoje desaparecer, porque a força das palavras que ali escrevo estão já lançadas ao vento e mergulhadas nos livros de areia, que é o mais precioso que temos, a respiração sincera, o pulsar do desassossego. Podem arder sem sequer ser espreitadas. Esse silêncio em que me desvendo naquelas páginas, é o que tenho de mais próximo das muitas pessoas que sou. E já é. É o valor que as coisas têm por si próprias. Tão diferente do valor que as coisas tendem a ter hoje pela aparência do valor que alguns nos querem convencer que têm.

domingo, 2 de setembro de 2007

Fórum Cultural - 1) A estupidez neurótica

A 26 e 27 de Setembro realiza-se em Lisboa, no CCB, o Fórum Cultural para a Europa. É um acontecimento muito importante para a discussão e compreensão das linhas orientadoras do posicionamento da Europa no que diz respeito à cultura.

Até lá, para preparar o espírito para o tema, partilho alguns textos que provocam a reflexão. Não significa que concorde com o que todos eles defendem, mas são pertinentes estimulantes para pensar a discussão que ali vai ocorrer. Porque a informação é tanta, esquecemos muitas vezes o que aprendemos no passado. E, em alguns casos, há textos que foram lidos há anos e que vale a pena reler.

Um dos temas centrais do debate, incluído num dos três workshops, é o das Indústrias da Cultura. Começo por aí. Começo pela «estupidez neurótica» e a «regressão da audição» segundo Theodor W. Adorno, no texto «Sobre o carácter fetichista na música e a regressão da audição», incluído no livro «Sobre a Indústria da Cultura» (na versão portuguesa da Angelus Novus).

Fica um excerto:

«Em contraponto ao fetichismo da música consuma-se uma regressão da audição. Com isto não se pretende significar um regresso do auditor isolado a uma fase anterior do seu desenvolvimento pessoal, nem também um abaixamento do nível colectivo, pois que hoje a comunicação de massas atinge musicalmente, pela primeira vez, milhões de auditores que não se podem comparar com as audiências do passado. O que regride é, sim, a audição contemporânea, retida na sua fase infantil. Os sujeitos que escutam música não só perdem, com a liberdade de escolha e a responsabilidade, a capacidade de conhecerem conscientemente a música, coisa que desde sempre foi apanágio de grupos restritos, mas sobretudo recusam obstinada e liminarmente a possibilidade desse conhecimento. Flutuam entre um esquecimento generalizado e súbitos mergulhos no reconhecimento; ouvem de forma atomística e dissociam o que ouvem, embora com a dissociação desenvolvam certas capacidades, cuja apreensão é mais adequada aos conceitos do futebol e da condução de automóveis do que aos conceitos estéticos tradicionais. Não são crianças, como por exemplo esperaria uma concepção que assimilasse o novo tipo de auditores à introdução na vida musical de camadas sociais anteriormente estranhas à música. São, sim, acriançados: o seu primitivismo não é o dos não desenvolvidos, mas o dos que foram forçados a uma regressão. Manifestam, quando a oportunidade lhes é dada, o ódio contido de quem realmente pressente o outro, mas o rejeita, para poder viver em paz, e que, por isso, preferiria erradicar de vez a impertinente possibilidade. É esta possibilidade presente, ou melhor, mais concretamente, a possibilidade de outra música, de uma música oposicional, aquilo de que se regride. Mas regressivo é também o papel que a música de massas contemporânea desempenha no lar psicológico das suas vítimas. Não são apenas afastados de músicas mais importantes, são, sim, confirmados na sua estupidez neurótica, independentemente da forma como as suas capacidades musicais se comportam relativamente à cultura musical específica das anteriores fases sociais. A identificação com as canções da moda e os bens culturais vulgarizados acusa a mesma síndrome que aquelas faces das quais já não se sabe se o filme se alienou da realidade ou se foi a realidade que se alienou do filme: escancaram a boca informe com dentes brilhantes num voraz sorriso, enquanto lá em cima os olhos cansados vagueiam tristes e aturdidos.»

sábado, 1 de setembro de 2007

O que fazer na Second Life

Conversar no topo de uma montanha de gelo...

Visitar jardins encantados e olhar o lago sentada num balão de ar flutuante...

Ver o pôr do sol com um amigo...

Is ao Centro de Emprego (na ilha Portugal Lisboa)

Andar de balão...


Voar sobre paisagens encantadas...

Dançar...

Ir ao fundo do mar...

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Verão e Vinicio Capossela



Numa discoteca em Modena, pedi que me recomendassem músicos italianos que fossem interessantes ouvir, na linha dos escritores de canções, contemporâneos. Recomendaram-me Vinicio Capossela, dizendo que era o Bob Dylan italiano... Quanto à comparação, não sei exactamente como comentar. São muito diferentes. Mas Vinicio vale mesmo a pena ouvir e vem à Culturgest, a 17 de Novembro. É um concerto a não perder. Pelas atmosferas musicais, mas também pelas letras, e pela voz. Pelo temperamento da poesia que impregna de vida e de sensibilidade a música.

Fica apenas um verso... ao amor... talvez porque é Verão. E Portugal tem praias tão bonitas, como esta, em Aveiro.

«Che cossè l'amor»
che cos'è l'amor
chiedilo al vento
che sferza il suo lamento sulla ghiaia
del viale del tramonto
all'amaca gelata
che ha perso il suo gazebo
guaire alla stagione andata all'ombra
del lampione san souci (...)

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

3º Andar Dto. Bruce Willis


Oportunidade única de espreitar um espaço de intimidade de um dos criadores mais interessantes da dança contemporânea portuguesa, aqui numa proposta em diálogo com o design. Miguel Pereira abre as portas de casa para um 'showroom' pensado em colaboração com os designers Bruno Carvalho, Elizabete Francisca, Nicolaas Leach e Paula Frazão.

As portas estão abertas dias 1 e 2 de Setembro, das 16h às 21h, na Travessa do Terreiro de Santa Catarina, nº32, 3ºdto, em Lisboa.


«Tentando fugir à metodologia habitual neste tipo de “diálogo” artístico, procurou-se encontrar um território onde fosse possível questionar tanto a função do design como a sua aplicação a um universo performático.
Assim, em vez de trabalhar e pensar os objectos aplicados a um possível espectáculo, como seu complemento, optou-se por deslocar a sua intervenção para um outro tipo de “cenário”: o universo privado (a casa) do próprio artista.
É a partir desta premissa, que o trabalho se mostra ao público, permitindo assistir, in loco, à revelação de um lugar que de outro modo estaria vedado ao seu olhar, pela sua natureza íntima.
Com efeito, e durante 2 dias a casa do Miguel estará aberta a quem quiser para mostrar o antes e o depois da transformação sofrida no âmbito da proposta e dos objectivos traçados por ambas as partes.
Em 2008, e numa terceira parte do projecto, tentar-se-á deslocar o cenário “real” da casa para um espaço público (uma galeria, por exemplo) e confrontar o olhar do espectador com a performance privada do artista, agora actuando num contexto “público”.» Texto do programa

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

A nevar em SL e a nudez resolvida




Está a nevar algures numa ilha em SL. Depois de fugir de uma festa tresloucada. E a Jonsy já ultrapassou a fase da nudez compulsiva e os constrangimentos que daí decorriam. Tudo se resolveu, simplesmente, com... uma nova placa gráfica para o computador. O mundo está mais bonito, mais luminoso, e até os movimentos estão mais ágeis.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

O fantasma do Convento da Saudação


Legenda: Fotos do Convento da Saudação (O Espaço do Tempo, centro coreográfico de Rui Horta, em Montemor-o-Novo) durante o projecto Colina - Colaboration In Arts, de 2003

Primeira aproximação à história de Samuel B (uma história complicada... que não mais termina...)
Publicado na revista Magazine Arts em... 2003?

Percorri os recantos do Convento da Saudação, em Montemor-o-Novo, à procura de Samuel B.
Recordava um breve encontro do passado, e a sua imagem perseguia-me como uma sombra que queria reencontrar corporizada. Dessa troca fugaz de olhares e palavras ficaram-me marcadas as impressões de um sorriso
misterioso,
ambíguo,
sorriso precedido de artigo indefinido e acompanhado por uma absurda aparência de olhar triste.
Um sorriso de olhar perdido no mundo.
Era como se Samuel B. não tivesse alma.
Era como se Samuel B. não compreendesse quem era.
E nessa não compreensão, era como se Samuel B. se lançasse num abismo de sentidos, no colapso de uma existência especial, extraordinária, fazendo da sua maior fraqueza – essa angústia de quem sente ou pressente que não é enquanto ser constituído de uma essência – a sua maior força. Samuel B. fez de um constante desdobramento de personalidade, de uma desmultiplicação de comportamentos psicóticos, uma capacidade de frequente renovação da sua identidade e uma extraordinária adaptação à circunstância particular que tinha, a cada novo instante, de enfrentar.
O que ele era, Samuel B. não sabia.
E por isso era muitas pessoas diferentes que a cada novo momento descobria, maravilhado, dentro de si.
E por isso, para nesse processo de constante metamorfose se poder encontrar, conseguia sempre antecipar a expectativa criada nas pessoas que consigo se cruzavam, superando a surpresa aguardada, surgindo com uma acção que o tornava irremediavelmente inesquecível. Samuel B. experimentava no seu não ser íntimo as delícias de quem, com furiosa ânsia, adaptava o seu temperamento ao que entendia como sendo desejado por determinada pessoa ou determinado grupo de pessoas, aplicando uma peculiar sensibilidade neste processo de análise psicológica e sociológica da expectativa criada no outro e nunca, mas nunca, o decepcionando. Assim, este louco que queria ser alguém e sentia que Não Era e que queria ter o dom de compreender quem era, caso se viesse a constituir enquanto Alguém, ainda situando-se nesta fase de sonho, por ser antecipatória desse instante de concretização do ser completo, desejava ardentemente iluminar-se de uma sabedoria interior que lhe permitisse compreender quem era esse ser que um dia poderia vir, finalmente, a constituir-se enquanto Ser.
Era tendo todas estas desmedidas ambições que Samuel B. andava pelo mundo a deixar marcada, como uma tatuagem, a sua imagem no ser dos outros.
Por enquanto era apenas uma sombra,
e, sendo apenas uma sombra, era muito mais do que apenas uma sombra, porque se constituía enquanto corpo físico, cuja presença era desejada, mesmo antes de sentida.
E mesmo enquanto apenas sombra, sendo mais do que mera sombra, era uma silhueta confusa que se instalava docemente sobre a nossa pele,
que nos percorria o corpo de um arrepio inesperado à noite, como se alguém invisível suspirasse baixinho ao nosso ouvido, por baixo dos lençóis, em noites de lua cheia. E nesse instante de aragem sensual, de hálito quente e adocicado, éramos tocados como se o ar fosse todo corpo em harmonia com o nosso próprio corpo. Samuel B. destruía todas as apatias do universo com um poder omnipresente que rivalizava com Deus nos céus.
Que criatura é esta que pisa o mundo e que todos desejam e ninguém compreende?
Samuel B. é um nome que ainda hoje quero conhecer mas que se me escapa, por entre os dedos, por entre uma distracção do olhar, por entre uma desatenção.
Samuel B. é uma obsessão.
Samuel B. passeou-se pelos corredores do Convento da Saudação, em Montemor-o-Novo, durante quinze dias, como uma fantasmagoria que assombra a existência de quem realmente existe e respira e suspira.
Samuel B. é o espaço da invenção, o espaço da maravilhosa possibilidade de construção criativa que apenas a imaginação humana consegue operar, e que se torna simbólico da realidade, ela mesma estonteantemente criativa, que se instalou, naquele Convento, num projecto de residência artística. E no espaço escrito, neste lugar de construção narrativa, onde antes existia apenas a folha em branco, cruzam-se os mundos da verdade e da mentira, sendo a mentira uma reacção intuitiva à realidade que a inspirou. Chamou-se Colina. Essa experiência inspiradora. Significa Collaboration In Arts. E as pessoas com nomes de pessoas que são personagens com nomes de pessoas verdadeiras cruzaram-se naqueles claustros de ideias em execução e questionamento e problematização. E colocaram ao serviço de terceiros os corpos verdadeiros de pessoas verdadeiras que são pessoas com uma construção social, com uma configuração artística. Construiu-se assim, por quinze dias, uma comunidade transitória de pessoas que se dispõem a jogar ao faz-de-conta, que se dispõem a ser manipuladas como matéria-prima para moldar ideias alheias. E por ali encontraram-se os rostos do fingimento do teatro e os corpos da sugestão da dança e os nomes de pessoas com nomes de pessoas que são autores e que são intérpretes e que são nomes com muitos significados e que transportam atrás de si mundos de construção imagética, inevitavelmente a eles associados. E a primeira ideia foi de Rui Horta. E surgem depois todos os nomes. Recordo o nome de Clara Andermatt, e recordo o nome delicado e disponível para a colaboração de André Gingras, Anton Skrzypiciel, Luciano Amarelo ou Nicolas Cantillon, e recordo o nome de João Garcia Miguel, que é uma personagem por entre as personagens que ele próprio tem inventado, sendo ele próprio possivelmente a maior e mais complexa e caricatural e deliciosa personagem que alguma vez consolidou enquanto encenador invulgar de sentidos invulgares do seu potencialmente invulgar espaço teatral. E evocam-se outros nomes, que vêm atrás destes primeiros e possivelmente (noção discutível se aproxima) mais reais nomes. E surge Andy Warhol, que evoca um mundo de arte como mercado e toda uma estratégia e postura de construção de personagens e de identidades que em si mesmo dilui a separação entre o mundo da arte e o mundo do real. Ou cria entre os dois um abismo maior? E chama-se por Marcel Duchamp num palco habitado por uma provocação de Stephanie Thiersch. Duchamp que não responde, mas cuja referência transporta todo um mundo simbólico que é difícil ignorar. E tudo por ali deixa um rasto de memória marcado nas paredes do Convento (ou, por extensão, no Teatro Curvo Semedo), que por si mesmo carrega já a poética ruína dos tempos antigos (e surgem outros nomes, o universo de delícia da «Casa de Bonecas» de Susana Jaques ou a magia da imagem de Hélder Dias). E neste ritual de passagem, de todas as pessoas insignificantes que somos todos nós, meros 'passers by', evoca-se Rebecca Schneider, ao referir a qualidade de passeantes, seres fugazes que a memória do tempo tratará de eliminar (mais uma noção discutível) por não figurarem nos murais das ilustres figuras fixadas para a posteridade. 'Passers by' em vertigem por entre os intestinos do monumento, construindo no seu âmago o paradoxo do sangue vertiginoso presente, performativo, pulsante, em confronto com o enigma da corrosão decadente dos séculos que passaram e que ditaram a imponência para a posteridade da sociedade do arquivo que nos esmaga nas suas configurações dos absolutamente válidos para a existência eterna. Quem impõe as regras? Quem dita os padrões?
O que é um conto?
Uma frase roubada a alguém cujo nome não guardei.
Desejo ardentemente que assim seja.
Samuel B.
Regresso ao sorriso imaginado que imagino a desenhar-se na face de Samuel B. quando cruza o seu olhar com o meu.
E nesse instante em que os olhos se tocam, sinto-lhe o corpo na proximidade do calor do meu.
Samuel B. foge, mais uma vez. É rápido a baixar o olhar, a fechar a porta para o seu mundo interior. Talvez com receio de que o descubra vazio.
E por entre as paredes grossas do Convento da Saudação corre veloz a sombra de Samuel B., de mãos nos bolsos, a chupar uma pedra e a deixar ouvir o chocalhar das muitas pedras que foi guardando nos bolsos que agora acolhem as suas mãos. E vêm tantas outras referências, apenas com mais esta referência às pedras chupadas, mas cuja partilha do dito no silêncio do que não é explicitamente afirmado remete-nos para uma outra experiência, que carrega consigo mais uma série de outras referências.
Os segredos.
Quem tem acesso aos segredos?
Quem nos escolhe para partilhar um segredo?
Com Samuel B. partilho todos os segredos do meu mundo e ele, em troca, oferece-me a ilusão de que eu tenho acesso a todos os segredos do seu mundo. E mais uma vez é um jogo de verdade e de mentira. E regresso aos corpos, o corpo fugidio e fantasmático de Samuel B., e todos os outros que deixaram vestígios nos corredores daquele Convento, como o de Luís Guerra, como um corpo em profunda fase de descoberta, de si próprio e das possibilidades criadoras do ser humano, e todos os outros corpos – e regresso aos segredos – que se dispõem a exercícios mais sussurrados, segredados ao ouvido por Teresa Prima, como um suspiro, que se solta numa cumplicidade que decorre em palco mas que salta depois para o exercício de testemunha desse momento de partilha. E esboço um sorriso na delícia da empatia estabelecida simplesmente, ali, por um afecto descoberto no acto criativo, entre Luís Guerra, Félix Lozano e Joclécio Azevedo. E novamente remeto para a memória de Rebecca Schneider e evocam-se as estátuas vivas construídas há poucas semanas nos jardins da Gulbenkian a partir de um segredo partilhado ao ouvido por um amigo recém-descoberto nos meandros das artes. E ouve-se uma voz doce que canta uma melodia nostálgica que nos embala para um mundo de sonho, onde é possível fechar os olhos e deixarmo-nos ir. Eric Linder.
E recordo a Eva do sorriso das noites brancas atrás dos sentidos das palavras que procuram outras palavras irmãs numa língua diferente, para nos aproximar a todos em cada novo dia de louca procura de novos sentidos para as palavras brancas que, com sorrisos, queremos colorir.
Tudo isto é um segredo, que partilho com quem me lê, que desejo partilhar com Samuel B.
Samuel B. que desejo.
Tudo isto é um segredo como são segredos todas as pequenas histórias, todos os pequenos contos, que escrevemos num papel e que apenas um grupo restrito de pessoas compreende em todo o seu significado. Mas basta escolher uma frase e adormecer com ela. Basta escolher uma imagem e aninharmo-nos nela. Basta escolher uma palavra, uma palavra é quanto basta, para nos enroscarmos num conforto de possibilidades e nos sentirmos confortáveis com os sentidos relativos e subjectivos de todas as outras palavras que inicialmente não compreendíamos. Porque não tínhamos acesso a todos os segredos.
E depois poderia falar de amores. Para que o conto se pudesse tornar mais universal.
E devo então falar dos corpos que se apaixonam e se precipitam no abismo do sofrimento da paixão intensa que seduz a morte e deixar correr algumas palavras de «O Erotismo» de Georges Bataille. E pensar no corpo de Samuel B., pensar em todos os outros seres que com ele se cruzaram e que por ele se deixaram seduzir, num encantamento impossível de superar, num encantamento que choca com a dor, o terror de não ser totalmente correspondido. O desejo de morte. O desejo de matar. E devo escrever ainda que este mundo de comunhão, que é habitado pelo sofrimento e pela angústia do profundo desencontro e da mais dura desatenção, é também o espaço da exaltação que a todos interessa. E Bataille pode ajudar.
«As possibilidades de sofrer são tanto mais vastas quanto só o sofrimento revela inteiramente o significado do ser amado.»
E nos momentos de exaltação, nos opostos, da profunda e delicada tristeza, que deixa o corpo vulnerável, à beira do abismo, em pose de definhamento, ou no seu oposto, no sorriso esboçado por um prazer inominável, para o qual a arte cumpre um determinante papel, evoco novamente essa figura fantasmática que me persegue há imenso tempo e evoco esse espaço de contaminação em que não é possível identificar a fronteira entre o mundo da verdade e o mundo da mentira. E todos os nomes.
Convoco todos os nomes.
Maria Herranz, Vítor Joaquim, Célia Costa, Luís Bombico, Celine Bacque…
Nomes evocados em vão neste texto fúnebre, de homenagem à doce memória de um passado recente, mas também de elogio fúnebre do artista maior que foi aquele que se soube construir a si próprio enquanto ser e que terminou a sua existência num acto abjeccionista e degradante de se satisfazer sexual ou assassinamente, por se encontrar num estado tal de perfeição que não concebia a possibilidade de se deixar tocar por outro que não ele próprio, por considerar que ninguém estava ao seu nível. Ou um homem louco, mais louco ainda que Samuel B., que depois de cometida a sua maior loucura, e aqui imaginem o que quiserem, decide escrever uma extraordinária defesa filosófica sobre a sua insana acção. E deste homem louco o que fica é esse deslumbre canibalista, que habita em todos nós, que passa a interessar-se por esta criatura e pelos seus feitos aberrantes, elevando-a à categoria de ser ilustre e interessante, cujas razões mais íntimas de tal comportamento desajustado e reprovável desejamos conhecer para compreender. E perdoar? Por quem sentimos uma tentadora atracção. E regresso a todos os outros nomes que evoco. Nomes que simbolizam esse espaço de limbo em que as pessoas são verdadeiramente alguém sem que ninguém saiba verdadeiramente quem são mas sem que, por intrusão dos afectos no raciocínio e julgamento das circunstâncias, ninguém se preocupa realmente com essa possibilidade de o jogo do faz-de-conta estar a ser jogado nas horas do dia-a-dia, fora do palco. Um espaço de limbo que continua a existir mesmo nos momentos em que o palco nos é colocado perante o olhar, e este (o palco) surja então como um possível contraponto para nos fazer procurar esses opostos – o espaço da verdade e o da mentira. Perante tamanha evidência, concluímos que não os encontramos (os opostos), descobrindo apenas uma deliciosa, por muito que muitas vezes perversa, continuidade dessa atmosfera de máscara socialmente aceitável, fora das fronteiras que definem o lugar do reino da mentira. E quando jogado com a intimidade, as fronteiras tornam-se não-lugares, zonas confusas, descaracterizadas, vulneráveis, onde não se sabe quem somos na verdade.
Desejo ardentemente que assim seja.
E Samuel B. é uma possibilidade de conflito com uma não existência ainda em fase de clarificação.
Começo a conhecer Samuel B., mas ele ainda não me abriu as portas para a sua verdadeira intimidade.
E tudo isto porque há a assinalar a persistência de uma sombra, a de Samuel B., que foi percorrendo os caminhos, os recantos, os claustros… do Convento da Saudação, enquanto estive duas semanas neste mesmo Convento a assistir a uma maratona de criatividade artística.
Onde começa a ficção e termina a verdade?
A questão remete novamente para esse não-lugar.
Desejo ardentemente...
Para aquele instante em que as pessoas que lá estavam, e que eram pessoas cujos nomes significavam muitos significados relativamente a quem eram essas pessoas em termos sociais neste mundo do espectáculo e neste mundo de verdade dissimulada dos afectos e das verdades de cada um, nos deixavam perante o dilema de perceber onde começa o nome que é propriedade de uma vivência íntima e onde acaba o nome que é resultado de uma construção criativa. E basta pedir algo tão delicado como uma disponibilidade para o choro. E perante o choro, perante aquele choro que nos é alheio mas, por ser de tal modo sentido e de tal modo fragilizante para a pessoa que a ele se entrega, nos faz confrontar com as nossas próprias vulnerabilidades. E poderia evocar, a propósito desta frase, mais nomes. Delfim Sardo, Catarina Campino. E talvez tudo isto seja mais um segredo. E sublinhar a delícia desse momento raro em que a arte nos faz confrontar com os nossos próprios fantasmas… Segredos.
Desejo ardentemente que assim seja.
Poderia novamente recordar que esta história respira a mesma essência que nos constitui a todos como seres humanos, há muito de construção artificial, de mentira, de ficção, nesta narrativa, o que constitui zonas não totalmente identificadas, e há um fundo de verdade, mas não é preciso tudo conhecer, ter acesso a todos os segredos, para se deixar envolver pela capacidade de delícia resultante de um acto de partilha da imaginação. E repito-me. Basta uma palavra… e é possível experimentar esse privilégio da subjectividade, que constrói uma história pessoal a partir dos fragmentos de palavras lançados de forma desordenada nestas folhas de papel.
E regresso aos claustros do Convento da Saudação. Recordo o rosto de Samuel B. Recordo as palavras de Bataille. Recordo o apelo à paixão, e a morte a espreitar. Recordo o erotismo do corpo. Esse sentido real, que apela aos sentidos. E recordo Samuel B. a esquivar-se.
Samuel B. esquiva-se com um sorriso e sai ligeiro deixando-nos suspensos nesse sorriso.
Samuel B.
Um nome que ressoa na minha mente como uma gravação sem possibilidade de ser apagada.
Samuel B. como uma sombra, uma imagem que me persegue os passos sem privilegiar do prazer da sua presença.
Samuel B. uma obsessão.


O conto.
Desejo ardentemente que assim seja.
O conto?
Desejo…
Havia normalmente um acordar matinal preguiçoso e arrastado. Do corpo quente que, durante a noite, se funde com a maciês dos lençóis e receia quebrar esse elo umbilical com um conforto infantil, receia perder a ternura de uma impressão inocente de segurança, e lançar-se sem temor nos braços do mundo selvagem. Numa dessas manhãs lentas de Julho, lembro-me de acordar com um sorriso. É peculiar esta lembrança de abrir os olhos para descobrir, numa descoberta intuitiva e interior, no meu próprio rosto, um esboço de felicidade. Esta foi uma revelação activada não pelo olhar cruzado com o meu próprio olhar e rosto no espelho, mas antes por um processo mental inexplicável em que, sem que eu tenha conscientemente me focado nesse acto do pensamento, dispara um registo fotográfico da minha própria expressão facial idealizada. E nesse instante de auto-contemplação mental, lá estava ele, o sorriso, a dizer-me baixinho que aquele seria um dia diferente. Era o primeiro dia de uma vertigem criativa no Convento da Saudação. Era o dia das primeiras impressões, do primeiro olhar, dos primeiros equívocos, das primeiras precipitações, das primeiras especulações, das primeiras curiosidades que resultavam numa primeira rede de aproximações e cumplicidades, numa coreografia muito estruturada e geométrica mas intuitiva e emocional de relações empáticas ao primeiro olhar. E entre aqueles mais de vinte artistas, lá estava Samuel B., a sombra de Samuel B., que me persegue os passos nos últimos meses e que me seguira até ali, para me ir sussurrando, ao ouvido, indiscrições, confissões de temores e de cobardias. Só eu via a silhueta de Samuel B. naquela sala, sempre sentado a meu lado. A insólita, impossível, sedutora personagem que era Samuel B., entretido nas suas anotações para um dos seus mil projectos, sendo este uma tese que misturava elaborações teóricas de grande complexidade discursiva e uma mais superficial análise dos comportamentos humanos, numa lógica quase bigbrotheriana mas vista a partir da convivência diária, praticamente 24 horas por dia, de um grupo considerável de representantes de uma comunidade artística diversa, de portugueses e estrangeiros, das mais diversas linguagens, no período de duas semanas, com o ambicioso propósito de instalar uma dinâmica criativa e experimental que, mesmo não resultando em produtos acabados, denuncia descobertas de novas possibilidades, de abordagem da criação contemporânea, tendo em vista as mais-valias da contaminação e do acesso às novas tecnologias. E Samuel B. por ali estava, entre os outros tão diferentes dele e no entanto confundindo-se com estes como um camaleão. Era um satélite que circulava por todo o lado, com o corpo solto numa impressionante descontracção com a sua existência física, como se esta fosse um mero instrumento de sentidos em harmonia que se destacava precisamente pelo ar descontraído que ele punha em toda a sua postura. Tinha uns olhos água, onde apetecia mergulhar, uns lábios de riso fácil e tristeza rápida, e punha na voz uma melodia e doçura tais que se colava à pele de quem o ouvia, tornando-nos irremediáveis presas do seu capricho e sedução.
Desejo ardentemente que assim seja.
Claudia Galhós